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A FELICIDADE DE CRIAR

Criar

Para mim, pintar tornou-se um meio de descobrir o caminho que leva ao universo interior. Quando o processo de criação é ativo, o tempo e o espaço parecem modificar-se. Uma consciência emerge em uma nova energia na qual a informação exata parece manifestar-se. O efeito que sinto é como uma grande aceleração do pensamento. Tudo torna-se muito mais claro e prazeroso.

 

Détail de "La Porte de Jade"

Detalhe de "La porte de Jade" © François SCHLESSER

 

O que eu mais gosto nesse processo é aquela paz interior que surge quando chego verdadeiramente a desconectar da realidade comum. Alguma outra coisa torna-se prioridade na continuidade dos momentos, fazendo o tempo romper-se em novos valores adaptados às necessidades de criatividade. O tempo se dilata, uma energia se manifesta, acompanhada com frequência de uma alegria na qual parece estar contido um extraordinário conhecimento universal Até mesmo o espaço parece ser afetado por essa “conexão” impossível de ser controlada. Essa energia benéfica me regenera. Ela é meu santuário, minha referência, meu guia e meu bem-estar. Nessa sensação de eternidade, o tempo se estende e o espaço se adapta, exatamente como na famosa teoria da relatividade. Então, o gênio se manifesta, emergindo de não se sabe onde, parecido com um cavalo enlouquecido galopando na imensidão do infinito, como se ele fizesse parte da vibração fundamental do universo.

O bem-estar e a alegria são sinais. Para mim, indicam que tudo o que faço no presente está de acordo com o plano da criação do universo. São manifestações do futuro que trazem, sob forma de sensações presentes, as consequências antecipadas das atitudes do momento. É uma comunicação direta com o presente eterno que informa que o estado do ser completo acaba de gerar, em uma ramificação do espaço-tempo, a tendência positiva para uma construção coletiva do universo.

 

Détail de "La Porte de Jade"

Detalhe de "La porte de Jade" © François SCHLESSER

 

A impulsão

Há alguns anos, minha razão foi muitas vezes interrompida por choques psicológicos intensos, que provocaram rupturas na continuidade de meu entendimento racional. Graças a isso, pude perceber momentos estranhos nos quais um silêncio interior se produzia na sequência de um colapso momentâneo do mental. Pode-se chegar ao silêncio interior através de uma técnica ligada à iniciação espiritual, mas um choque da razão provocado por acontecimentos inesperados pode levar igualmente o mental a interromper-se durante alguns breves instantes. Uma brecha se abre então em direção a outras dimensões nas quais uma espécie de consciência universal é perceptível. Nesse estado, que é muito mais forte quando o mental está quase aniquilado, vi claramente emergir das inspirações que me incitaram firmemente a viver minha realidade. Tive a certeza absoluta de que, doravante, podia  pintar. Essa certeza fez-me passar ao ato após ter tido a confirmação, apenas ao ver uma tela de mestre em um museu, que eu podia exprimir-me. Apenas o tempo de preparar tudo, eu começava diretamente minha primeira tela sem ter noção alguma de pintura a óleo, nem de sua técnica, nem da cor. Tudo o que me animava era a fé no fato de que tudo iria dar certo porque já que eu estava espantosamente certo daquilo. Minha primeira tela entusiasmou-me e confirmou-me a realidade daquele estranho sentimento. 

 

 

As visões

Desde então, visões interiores tornaram-se mais precisas. Eu já podia tratar muitos temas na tela. A certeza inflexível que eu tinha a propósito de minha possibilidade de pintar era reforçada pela qualidade das visões que se manifestavam. Finalmente, pensava, só me faltava recopiá-las na tela, minha imaginação e minha memória ajudando-me a fixá-las no quadro.

Acredito que só se pode pintar quando se tem um modelo para ser reproduzido. Esse modelo pode existir na realidade espaço-temporal, manifestar-se sob forma de visões interiores, ser o resultado de uma construção mental, ou ainda ser o resultado de uma mistura de todas essas possibilidades. Mas em todos os casos, o artista deve ter um para executar sua obra. Sem modelo, o pincel não avança, a tela mantém-se branca. 

Eu começava então por representar o espaço, sentindo-me aspirado por essa imensidão incomensurável onde a vida pulula, onde centenas de bilhões de mundos, todos únicos, navegam ao ritmo das marés gravitacionais, embaladas pela luz do infinito.

 No início, minha pintura foi marcada pelo surrealismo simbólico. Depois, ao tomar consciência de que o símbolo estava, de qualquer maneira, intrínseco em qualquer obra, eu abandonava rapidamente a representação intelectual para lançar-me naquilo que eu tinha mais vontade de criar. Então, comecei a pintar mundos longínquos, inabituais, às vezes semelhantes àqueles que se percebem no espaço mas sob ângulos que poderiam ser percebidos por criaturas dotadas de sentidos  complementares. Eu recopiava meus sonhos noturnos e minhas visões fugazes do estado de vigília, ou ao menos inspirava-me nelas, pois algumas visões eram móveis e muito difíceis de ser memorizadas.

 

 

A causalidade

Algumas vezes, tenho a impressão de que minhas pinturas são o produto de viagens transdimensionais que se revelam na tela em fragmentos de energia metamorfoseando-se em imagens concretas. Para que o fenômeno de visão se manifeste, é preciso que as informações sensoriais reúnam-se em uma tela interior de maneira coerente. Essas informações poderiam muito bem ser transmitidas através da energia em movimento, por um tipo de memória ressurgente proveniente do universo, que seria filtrada e veiculada pela atividade criadora do mental em uma proporção ligada à individualidade. A ideia de uma memória universal contida no próprio substrato do universo parece-me cada vez mais provável. Essa memória do infinito   seria tão prodigiosa que teria a capacidade natural de ter consciência de si mesma. Em todo caso ,é o que minha pintura sugere desde o início. Parece-me que a física quântica já tocara essa memória sem saber. Seria lógico que o universo tivesse necessidade de registrar permanentemente o desenrolar total de sua própria dinâmica multi-espaço-temporal. Esse registro perpétuo lhe serviria de alicerce para que pudesse continuar a construir-se indefinidamente sua expressão multidimensional. Essa memória seria de alguma maneira seu Espírito/DNA, e nós teríamos cada um a possibilidade de conectar-se a ela para conseguir a informação exata correspondente a  nossa evolução ideal pessoal, aproximando-nos, assim, de uma lei de harmonia universal. Ao estar de acordo com as engrenagens do universo, a realidade decorrente de nossas atitudes e de nossos comportamentos individuais tenderia certamente em direção a uma harmonia coletiva superior. Novas realidades aparecem,  encaixe por encaixe, remodelando totalmente a configuração energética de nosso mundo. Nossa maneira de viver coletiva seria baseada na percepção intuitiva da informação exata, sempre distribuída no bom momento, graças a essa memória inteligente na qual futuros e passados da história completa dos mundos parecem aí contidos.

 

 

A vibração do eterno

A pintura é uma Arte extraordinária no sentido em que ela permite desenvolver sua acuidade sensorial. Ao entrar no processo criador, todos os sentidos são solicitados. Pintar obriga a observar, contemplar, perceber em profundidade, isto é, comunicar-se com a energia universal. No início, começa-se a “olhar”, depois vem o instante no qual se “vê”, no qual se sente. De uma certa maneira, ouve-se o infinito cochichar, depois, às vezes, entra-se em comunicação com a matriz dos mundos.

 

Pintar trouxe-me a compreensão automática e intuitiva do princípio vibratório, simplesmente porque utilizo uma gama de cores de que gosto de espalhar sobre uma tela. Arrebatado pelas revelações dos universos que emergem de minha obra, um dia entendi claramente que a pintura era a música dos olhos. Enquanto meu pincel voava acima das brumas galácticas, entendi que o universo tocava uma sinfonia na qual cada nota era um elemento-chave, que cada galáxia era um acorde tocado por uma quantidade incalculável de instrumentos vibratórios que são os elementos que a constituem em todas as escalas de grandeza. Entendi que o universo inteiro era um canto composto de uma infinidade de notas multidimensionais e que, dessa sinfonia inexprimível de beleza, o universo era seu próprio princípio criador, que sua consciência global tinha a capacidade de perceber sua maravilha, o que o mergulhava  permanentemente  em um êxtase infinito e eterno. Perguntava-me,então, se, sendo um Espírito estático dotado de uma consciência imediata da memória infinita de todas as coisas, como ele poderia desconhecer e não gostar de algo infinitamente? Nesse momento preciso, enquanto meu pincel deslizava sobre a tela, eu entrava em transe. Acabava de obter minha resposta. Contemplava minha tela que emergia das profundezas da consciência como um oráculo diretamente saído do oceano de multitudes. O universo era uma poesia icomensurável na qual se tocava o maior canto de amor, eu tinha certeza absoluta disso. Eu me encontrava em uma felicidade inefável.

 

Détail de "L'océan des multitudes"
Detalhe de "O oceano de multitudes" © François SCHLESSER

 

 

Acredito que somos os filhos desse princípio criador pai/mãe de todas as vidas. Merecemos seguramente estar conectados permanentemente na essência desse princípio pois fazemos parte dele. Somos, cada um, uma expressão única desse princípio, e devemos representá-lo na terra ao exprimi-lo de maneira natural, cada um sendo simplesmente “si mesmo”. Eis o que minha pintura me conta.

© François SCHLESSER 13 de Junho de 2005
 

Tradução do texto original Francês por Silvana VIEIRA DA SILVA

  

Artigo publicado em STARGATE Magazine (p 42 à 45) Sciences de l'extra ordinaire N°11 (août-septembre 2005)

 

 




segunda-feira, 8 janeiro, 2018 - 17:33